sexta-feira, 24 de junho de 2016

FOGUEIRA DE SÃO JOÃO RIMA COM DEVASTAÇÃO


Dia 24 de junho, não é só dia de fogueira de festas juninas de São João. Mas também dia Nacional da Araucária. A data foi escolhida em virtude da festa de São João coincidir com a época do pinhão


Onde surgiu a Fogueira de São João?


De acordo com a tradição católica, a fogueira queimou, nas montanhas da Judeia, para anunciar o nascimento de João, no dia 24 de junho. Foi a forma que sua mãe Isabel encontrou para comunicar a chegada do filho à  Maria, sua prima, que também estava grávida e seis meses depois daria luz a Jesus.

Antes da evangelização da Europa, na Idade Média, as fogueiras eram utilizadas em rituais pagãos, que celebravam a chegada do solstício de verão no Hemisfério Norte. Como uma maneira de dar novo significado às práticas pré-cristãs, a exemplo dos cultos solares e lunares relacionados à vida agrícola, o dia 24 de junho foi incorporado ao calendário cristão, como comemoração ao nascimento de São João Batista.

Naquele continente, a diferença entre as estações é bem marcada por um contraponto: o solstício de verão – dia com maior duração da luminosidade do sol (21 de junho) –, e seis meses depois, o solstício de inverno – dia menos beneficiado pela luz solar (21 de dezembro). Entre os mais importantes cultos solares, registrava-se por toda a Europa a queima noturna de fogueiras no solstício de verão, para festejar a vitória da luz e do calor sobre a escuridão e o frio. A Igreja Católica adotou esses marcos cósmicos, atribuindo aos primos João e Jesus dois momentos de honra para seus nascimentos: o primeiro, perto do solstício de verão; o segundo, perto do solstício de inverno.

Reza a tradição popular que, para cada santo junino, a fogueira tem de ser armada de uma determinada maneira: a de São João deve ter uma base arredondada, já a de Santo Antônio deve ser quadrada e a de São Pedro, triangular.

                   Dia 24 de Junho: não é dia de fogueira é dia de pinhão


Araucaria angustifolia é nativa da Mata Atlântica brasileira e está seriamente ameaçada de extinção. Sua semente serve de alimento para a fauna como a cotia e a gralha-azul, que escondem o pinhão no chão e depois se esquecem, fazendo com que surjam muitas mudas. Elas semeiam hoje o que vão comer. 


A Araucária também é conhecida como Pinheiro-do-Paraná por ser o símbolo do Estado, a espécie cobria 40% do território. Em Santa Catarina, chegava a 30% e, no Rio Grande do Sul, 25%. Hoje dispõe de 3% de sua área original, incluindo florestas exploradas e matas em regeneração. Menos de 1% guarda as características da floresta primitiva, sem interferência do homem. Existem apenas em Unidades de Conservação (UC), como parques e Reservas de Patrimônio Particular Natural (RPPN). Este é um dos motivos da necessidade de criação de novas UCs com a ocorrência da araucária.

São encontradas na região Sul do Brasil e nos pontos de relevo mais elevado da Região Sudeste. Existem pelo menos dezenove espécies desse tipo de vegetação, das quais treze são endêmicas (existe em um lugar específico). São encontradas na Ilha Norfolk, sudeste da Austrália, Nova Guiné, Argentina, Chile e Brasil.

Essa frondosa árvore foi praticamente dizimada devido a sua madeira ser de alto valor comercial, chegou a responder por mais de 40% das árvores existentes na Floresta Ombrófila Mista. Atualmente, é muito difícil se deparar com um pinheiro de tronco grosso, com mais de um metro de largura, mesmo em áreas protegidas. Sua ocorrência vai do planalto gaúcho à Serra da Mantiqueira, ocupava em torno de 200 mil km². 




Essa cobertura vegetal desenvolve-se em regiões nas quais predomina o clima subtropical, que apresenta invernos rigorosos e verões quentes, com índices pluviométricos relativamente elevados e bem distribuídos durante o ano. A araucária é um vegetal da família das coníferas que pode ser cultivado com fins ornamentais, em miniaturas.


A queima de Florestas - Um estudo de caso: 

 Volume de madeira queimada na festa de São João em 100 cidades do Estado da Bahia

O professor Dr. José Claudio Flores, da Universidade Estadual do Estado da Bahia UESB, e equipe, ao coordenar uma pesquisa para investigar o volume de madeira incinerada em fogueiras, durante a celebração da festa de São João, verificaram que no município de Vitória da Conquista foi queimado o equivalente a 2.313 arvores, extraídas para atender a demanda de lenha para fogueiras na noite desta festa, tradicionalmente no dia 23 de junho.
Prosseguindo nas suas pesquisas a respeito de demanda de lenha, em Vitória da Conquista em 2010, que em 12 tipos de atividades comercial e industrial, foram consumidas 5.627 m3 /mês de lenha, o que requer a extração de 202.551 árvores, com fenótipo, aparência, do eucalipto, que tem sido muito utilizado no estado da Bahia, em plantios comerciais, chamado também de reflorestamento para produção de madeira.
 Dando continuidade a esta pesquisa temática o professor Flores, e colegas, quantificaram o número de fogueiras que são queimadas na noite de São João, em 7 cidades no Planalto da Conquista: Poções, Planalto, Barra do Choça, Belo Campo, Cuaraçu e Encruzilhada, quantificando 3410 de fogueiras, responsável material pela queima de 2046 m3 de lenha, para o qual são necessários um volume de madeira extraída de 3410 árvores com fenótipo do tipo eucalipto, obtidas a partir de uma área cultivada de 9 hectares. Neste caso, está sendo considerado para cada fogueira 1 (uma) árvore do porte de um eucalipto com sete anos de idade.

Indagações :



Até quando as nossas crenças ou meras diversões irão contribuir para a destruição do nosso planeta?

Você já parou pra pensar que toda queima de fogueira é também causadora dos gases que aumentam o efeito estufa e com ele o aquecimento global?


Compare quantas pessoas sabem que dia 24 de junho é dia e celebrar as florestas de Araucárias, que é a árvore símbolo do nosso estado, e quantas sabem que é dia de Festa Junina de São João e com ela, dia de fogueira?



Textos e fontes extraídos dos seguintes links:
http://www.apremavi.org.br/noticias/apremavi/251/dia-nacional-da-araucaria

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Lenda do rio amazônico em ebulição é real

Cientistas descobrem e estudam rio com ebulição misteriosa que era citado em antiga lenda amazônica

 Durante séculos, uma lenda peruana conta sobre um rio na Amazônia que queima de forma tão intensa que pode matar. Segundo a lenda, conquistadores espanhóis teriam se arriscado na floresta em busca de ouro, mas quando – poucos – os homens retornaram, contaram histórias de uma água envenenada, cobras devoradoras de homens e um rio que borbulhava misteriosamente.
Segundo o geocientista peruano, Andrés Ruzo, o mito o fascinava desde a infância, mas ele nunca pensou que fosse verdade. Quando ele estava completando sua tese de doutorado sobre o potencial de energia geotérmica no Peru, ele começou a questionar se o rio poderia realmente ser real. Quando ele consultou os especialistas, todos foram unânimes ao afirmar que seria impossível, afinal, existem rios quentes, mas eles geralmente estão associados a vulcões – inexistentes na região.
Porém, quando Ruzo foi para casa durante as férias e perguntou à sua família de onde o mito tinha se originado, sua mãe lhe disse que o rio não apenas existe, como também ela e sua tia já haviam nadado nele, no passado. O relatou pareceu um pouco absurdo para ele. Porém, em 2011, Ruzo teve uma chance de procurar o local e explorar a floresta amazônica com sua tia. Foi então que ele viu o famoso e lendário rio com seus próprios olhos. “Quando eu vi o vapor quente, imediatamente peguei o termômetro. A temperatura média registrada no rio foi de 86 ºC. Não é um ponto de fervura, mas definitivamente está muito perto dele. Ou seja, a lenda era real”, disse Ruzo em uma palestra para o TED, feita em 2014.
A parte mais intrigante foi o tamanho do rio. Nascentes de água quente não são incomuns, e piscinas termais chegam a estas temperaturas em outras partes do mundo. Porém, nada chega perto desse rio: com até 25 metros de largura e seis metros de profundidade, sua água quente percorre incríveis 6,24km. O rio está a 700km do sistema vulcânico mais próximo, e a temperatura é simplesmente inexplicável. Ele é o único rio de seu tipo em qualquer lugar do mundo.
Descoberta
Ruzo, então, passou os últimos cinco anos estudando o rio, seu ecossistema circundante e sua água, na esperança de descobrir o que está acontecendo. Ele faz questão de afirmar que não foi o primeiro a descobrir o rio, e tal como sugerido pelo seu nome indígena – Shanay-timpishka, que significa “cozido com o calor do Sol” – ele também não foi o primeiro a se perguntar o que faz dele tão quente. Mas sua pesquisa – apoiada em parte por uma concessão de exploradores da National Geographic – revelou alguns de seus segredos.
O primeiro deles é que seu nome está errado, pois não é o Sol que aquece sua água, e sim nascentes de água quente com falhas. Imagine a Terra como um corpo humano, com linhas de falhas e rachaduras que funcionam através dela como artérias que são preenchidas com água quente. Quando elas vêm à superfície, acontecem manifestações geotérmicas, como o rio fervente.
A análise química revelou que a água do rio originalmente veio da chuva. Ruzo acredita que isso remeta a um local distante – como os Andes – e ao longo do caminho ela escoe por baixo da terra, onde é aquecida por energia geotérmica. No fim do trajeto, ela surge na Amazônia, exatamente no local do rio fervente. Isso significa que o rio é parte de um sistema hidrotérmico enorme, jamais visto em outro lugar do planeta.

O ecossistema do rio
Ruzo tem trabalhado com os biólogos Spencer Wells e Jonathan Eisen para sequenciar os genomas dos micróbios que vivem dentro e ao redor do rio. Eles descobriram novas espécies que são capazes de sobreviver ao calor e também descobriram que o rio pode ser mortal.
A água fica tão quente que, regularmente, os pesquisadores presenciaram animais caindo na água e fervendo lentamente até a morte. “A primeira coisa a ferver são os olhos. No fim, os animais não podem mais nadar, e a água enche a boca ou pulmões, mantando-os de dentro para fora”, explicou ele em sua palestra pelo TED. Sendo assim, as pessoas também não poderiam nadar no rio – como sua mãe alegou – mas quando ocorrem chuvas pesadas, o calor é diluído com água fria.
Resultados da pesquisa
O rio está localizado em Mayantuyacu, Peru, no fundo do coração da floresta amazônica. Por alguma razão, o rio escapou do escrutínio científico. Mas Ruzo está em uma missão pessoal para mudar isso.
Ruzo continuará estudando o rio e sua fonte, mas, seu foco principal agora é como proteger o rio e o terreno circundante. Embora suas descobertas estejam prontas para publicação, ele está evitando revelar todas, até que o governo peruano garanta que eles vão adotar medidas de conservação adequadas no local. “No meio do meu doutorado, eu percebi que este rio é uma maravilha natural. E ele poderá não ser mais, a menos que façamos algo a respeito”, disse Ruzo em entrevista ao Gizmodo.
Ele acaba de lançar um livro chamado “The Boiling River (algo como “O Rio em Ebulição”), relatando suas aventuras, e pretende divulgar todos os detalhes sobre seu sistema único, para que as pessoas possam assumir a causa da proteção ambiental do local circundante. “Eu não gosto do conceito de uma pessoa segurar esta responsabilidade. Eu acho que seria melhor a construção de uma comunidade em escala internacional. O planeta está ficando pequeno, e maravilhas naturais como esta são poucas e distantes entre si”, concluiu Ruzo.
Science Alert / Gizmodo ] [ Foto: Reprodução / Devlin Gandy ]

terça-feira, 21 de junho de 2016

O LEGADO DA ONÇA JUMA


Uma lição a ser aprendida



A morte de Juma, a onça-pintada que participou de uma cerimônia com a tocha olímpica em Manaus-AM na segunda-feira 20 de junho de 2016, revela o drama de uma espécie ameaçada de extinção e gera questionamentos sobre a manutenção de animais selvagens.

A onça em questão era "mascote" do CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva . Este foi o primeiro erro. A falta de respeito à natureza selvagem de um grande felino.Onças não são "mascotes"...não devem ser tratadas como animais de estimação!

Muitas onças, como Juma, se tornam mascotes dos batalhões e passam por sessões de treinamento. Em Manaus, os felinos são presença frequente em desfiles militares, prática condenada por biólogos e veterinários.

Juma foi levada, na coleira para a cerimônia da Tocha Olímpica no CIGS. Um equívoco gigante! Retirar o animal de seu recinto, onde ele estava habituado e provavelmente se sentia seguro, e levá-lo na coleira para uma cerimônia é um stress absurdo para um grande felino.

Depois da passagem da tocha olímpica a onça ficou nervosa e durante a crise de estresse causado pelo barulho, pessoas por perto e o fogo a onça se soltou na volta para o recinto, mas poderia ter escapado no meio da cerimônia, e agora teríamos, talvez também, pessoas mortas ou feridas,


Isso é um desrespeito, é transformar a cerimônia, literalmente, em um circo. E circos com animais não deveriam existir. Especialmente um circo administrado pelo exército.


E hoje uma foi abatida porque algumas pessoas sem noção, sem respeito e sem um mínimo de profissionalismo decidiram que ela deveria fazer parte de um show.

A morte desta onça não foi um acidente. Foi a consequência de uma decisão absurda tomada por quem deveria ser responsável pela segurança e bem-estar deste animal. 

 Extinção


O destino trágico de Juma chama a atenção para a situação cada mais precária da espécie. 
  
No Brasil, a Onça-Pintada é listada pelo IBAMA  desde 2003 como ameaçada de extinção. Globalmente é classificada  pela IUCN - União Internacional para a conservação da Natureza desde 2008 como “quase ameaçada”.

A conversão de seu habitat natural para atividades agropecuárias é a principal causa da redução de 50% de sua distribuição original, sendo que a espécie foi extinta em dois (Uruguai e El Salvador) dos 21 países em que ocorria historicamente.

A onça-pintada é legalmente protegida na maioria dos países que compreendem a sua distribuição – somente na Bolívia a caça ainda é permitida; e a espécie não tem nenhuma proteção legal no Equador e Guiana.


A Lição


Esperamos que ao menos, o legado de esse triste episódio, seja o de que o ser humano passe a utilizar a inteligência que, teoricamente, o diferencia das demais classes de animais, para refletir sobre a situação e que isso nos faça rever as condutas hoje utilizadas em locais como o CIGS.

Acredito que, no caso específico dos militares brasileiros, que a vergonha dessa tentativa desastrada de chamar a atenção num evento das olimpíadas, com uma onça, os façam mudar os procedimentos de uso e manuseio desses e outros animais selvagens. Evitando atividades que visem domesticá-los, treiná-los ou expô-los a situações de stress desnecessários. 
Trágica ironia, a onça é a mascote do time do Brasil.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cartões Artesanais - Arte da Terra


      Maiores informações acesse aqui:                                                        Cartões artesanais arte da terra


Ao observarmos os movimentos da natureza, coletamos elementos por ela oferecidos e, num trabalho que envolve habilidade, técnica e paciência foi construído uma proposta de valorização  da sensibilidade e cultura local. São flores, sementes e folhas que secam e são levadas pelo vento; penas, caules, cascas que gentilmente são disponibilizados pela natureza. São insetos que completaram seu ciclo de vida que potencializam a confecção de cartões e dão nova vida aos materiais utilizados.
Foi escolhido este nome»Arte da Terra» para contextualizar  a característica do nosso trabalho: arte colorida com a terra vermelha da nossa cidade porque acreditamos em uma nova consciência com o forma de geração de renda.
É na convivência  harmoniosa entre diversos povos da Região das Três Fronteiras, que nossas mãos retratam a alma da região por meio da arte que representa o despertar da sensibilidade e compromisso com respeito à vida.
Os cartões são comercializados pela Cooperativa de Artesanato da Região Oeste do Paraná - COART, que apóia toda a iniciativa de participação social e geração de renda.
        "Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova referência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar s sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz a alegre celebração da vida" (Carta da Terra). 

Ilza Alliana



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

COP 21: Ações tardias e termômetros em alta

A hora é de radicalizar e buscar todas as alternativas que interrompam a fragilização e o aquecimento do planeta.


Não será por falta de declarações, compromissos e reconhecimentos que o processo de enfrentamento das mudanças climáticas não irá alcançar bons resultados durante a realização da COP 21 (Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas) em dezembro próximo, em Paris. Mas o que são bons resultados? Basicamente eles se referem a compromissos e não necessariamente alterações no clima realmente perceptíveis
Os mais otimistas poderão dizer que as últimas notícias vindas de grandes emissores como Estados Unidos, China e Brasil; de importantes resoluções adotadas em encontros internacionais como a Cúpula do Desenvolvimento Sustentável e até mesmo por declarações de influentes religiosos como o Papa Francisco e lideranças muçulmanas sobre a importância de se cuidar do planeta, parecem mesmo representar um avanço importante no combate ao aquecimento global e as mudanças climáticas.
Já os mais pessimistas ou, melhor dizendo, os mais realistas, aplaudem esses posicionamentos, mas além de considerá-los ainda tímidos diante dos desafios também perguntam sem obter respostas:
O que está sendo proposto será mesmo suficiente?
E, o que ainda é mais angustiante pensar: ainda dará tempo de reverter todo esse processo?

A Cúpula de Nova York e o Desmatamento no Brasil
Foram boas e alvissareiras as notícias anunciadas durante a Cúpula do Clima realizada no final de setembro em Nova York e que serviu de palco para diversos países apresentarem seus compromissos nacionais a serem ratificados durante a Conferência Climática de Paris (a COP 21). Grandes empresas também buscaram se destacar e se uniram aos líderes mundiais para selar compromissos de descarbonização de suas atividades e investimentos em energias limpas.
A presidenta Dilma Rousseff também apresentou em Nova York o nosso INDC, sigla em inglês para o compromisso nacional determinado. A meta brasileira é diminuir 37% das emissões até 2025, chegando a 43% de redução em 2030. O incremento no uso de energias limpas, o reflorestamento de 12 milhões de hectares e o fim do desmatamento ilegal até 2030 estão entre as propostas para o alcance das metas estabelecidas pelo governo brasileiro.
Mesmo considerando positiva e apoiando em parte o anúncio oficial do país, organizações e movimentos da sociedade civil se pronunciaram quanto à falta de detalhamento e ousadia do Brasil. Fizeram coro com diferentes abordagens, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura; o coletivo Engajamundo e o Observatório do Clima, entre outros.
Unânime mesmo foi à reprovação da meta de conter definitivamente o desmatamento apenas em 2030. A secretária executiva do Diálogo Florestal, integrante da Coalizão Brasil, Miriam Prochnow, afirmou que “a Coalizão entende que temos a obrigação, inclusive constitucional, de atacar isso imediatamente, com mais força".
Na mesma linha, “declarar que o Brasil vai ‘buscar’ políticas para eliminar o desmatamento ilegal é ridículo. O que o governo está dizendo com isso é que aceita conviver com o crime por sabe-se lá quanto tempo. Isso é uma ofensa ao bom senso e ao que o Brasil já mostrou que pode fazer no controle do desmatamento”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. “É preciso lembrar que todos os outros países tropicais já se comprometeram a zerar o desmatamento em 2030”, acrescentou.
Enquanto isso a temperatura sobe cada vez mais
Debates, metas e mesmo críticas à parte, a verdade é que a temperatura continua a subir. Em seu último relatório o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), alertou que a temperatura do planeta subirá quase 5 graus Celsius até 2100.
Já relatório divulgado pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, em inglês) constatou que o mês de julho deste ano foi o mais quente já registrado no mundo. O mês registrou temperatura média de 16,61°C nas superfícies dos continentes e dos oceanos, 0,81°C a mais do que a média de temperatura do século XX. O ano passado já havia sido apontado como o ano mais quente da história moderna. Além disso, os 10 anos mais quentes registrados, com exceção de 1998, ocorreram a partir de 2000. 
A água sobe nos oceanos
Uma das consequências desse aumento constante na temperatura está nos mares e oceanos. Recentemente a NASA, órgão aeronáutico e espacial norte-americano, divulgou um estudo com imagens de satélite que revela um aumento de 8 centímetros no nível dos oceano de 1992 para cá, sendo que em alguns lugares do planeta chegou mesmo a 22 centímetros. Derretimentos de geleiras e expansão da água do mar estão entre as principais razões, efeitos, portanto, do aquecimento global.
Só na Groenlândia, por exemplo, a perda de gelo anual está em 303 bilhões de toneladas e na Antártida são em média 118 bilhões de toneladas que todos os anos têm contribuído para elevar o nível dos nossos mares. Se tivermos em mente que muitas das maiores e mais habitadas cidades do mundo estão localizadas em litorais, pode-se imaginar que efeito isso terá num tempo não tão longo.
Entre a constatação do aquecimento planetário e as ações anunciadas para reverter esse processo, o que nos cabe como sociedade é cobrar mais e mais efetividade e urgência. Descarbonizar a economia global, recuperar a cobertura florestal e mudar radicalmente nossa maneira de consumo e descarte não são mais possibilidades ou alternativas, mas necessidades básicas e urgentes para a própria sobrevivência da espécie humana. Vamos, portanto, radicalizar.
Publicado originariamente: Site Carta Capital 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O clima preocupa até na segurança pública

Por Washington Novaes –
Por mais que se queira, a cada dia é mais difícil de fugir dos temas relacionados a mudanças climáticas. A agência espacial norte-americana (Nasa) está dizendo que o mês de junho último “foi o mais quente dos registros históricos” desde 1880. O ano passado já teve temperatura média 0,69 grau acima da média do século 20 e este ano pode quebrar o recorde de temperatura (Estado, 21/7). Novo estudo de pesquisadores do Nepal, França e Holanda revela que as geleiras na região do Everest, no Himalaia, podem diminuir de volume pelo menos em 70% até o fim do século (elas já se reduziram em 13% nos últimos 50 anos).
Em meio a essas notícias, cerca de 2 mil cientistas de mais de cem países se reuniram em Paris entre 7 e 10 de julho para discutir “o nosso futuro comum sob as alterações climáticas”, com o objetivo maior de propor medidas para reduzir, entre 40% e 70% até 2050, as emissões de poluentes atmosféricos que contribuem para o aquecimento global.
E suas principais propostas foram de eliminar os subsídios a energias fósseis, que hoje chegam a US$ 550 bilhões anuais, e de fixar um preço para o carbono emitido em qualquer parte. Nada mais, nada menos, trata-se de enfrentar a resistência de algumas das forças econômicas mais poderosas, como as megaempresas de petróleo, gás e carvão e a indústria de veículos, entre outras. Mas, se nada for feito, a temperatura média do planeta pode aumentar entre 3,7° e 4,8° Celsius até o fim do século – com consequências que poderão ser catastróficas (ISA, 17/7).
Que fará o Brasil? Nossas autoridades da área do meio ambiente parecem não ter ainda chegado a termo com sua proposta final para a conferência do clima de dezembro, também em Paris, quando cada país deverá apresentar seus compromissos obrigatórios para essa área. Admitem que a proposta deverá ser diferente da defendida em 2009. E o País deverá propor a possibilidade de computar os efeitos benéficos de regeneração natural de florestas (só na Amazônia seriam 17 milhões de hectares de florestas secundárias crescendo e capturando carbono). Além disso, quer defender uma compensação pelo desmatamento reduzido até 2020. A proposta só deverá ser conhecida em outubro. Mas pretende-se analisar mais a intenção de reduzir as emissões nas áreas de energia e agropecuária, assim como a participação dos Estados e municípios no debate maior.
Em suas discussões com o presidente Barack Obama, no final de junho, a presidente Dilma Rousseff situou entre 28% e 33% a participação que as energias renováveis deverão ter na matriz energética nacional até 2030 e comprometeu-se a restaurar florestas (Folhapress, 1/7). Há cientistas, como o professor José A. Marengo, do Inpe e da Convenção do Clima, que acham as negociações na área brasileira muito influenciadas pelas posições de diplomatas do Itamaraty, quando o ideal seria “termos cientistas e diplomatas trabalhando juntos” (Ecológico, junho de 2015).
Estudos de cientistas na publicação Nature Climate Change dizem que a meta de limitar o aumento da temperatura a 1,5 grau neste século “não está totalmente fora do alcance”, mas “as possibilidades são remotas e os custos, elevados” (Observatório do Clima, 28/5), com muitas exigências nas áreas de energia e de transportes, principalmente, além de criar preço para as emissões de carbono a ser pago pelos emitentes. E isso exigiria a implantação de tecnologias de baixo carbono.
O professor Ronaldo Serôa da Motta, da UERJ, tem afirmado que a tendência é de que o panorama atual de crise leve os países a assinarem em Paris um “acordo gradualista, com metas pouco ambiciosas até 2030” (Amazonia.org, junho de 2015). Um dos pontos mais difíceis seria estabelecer metas diferenciadas entre os países, proporcionais a suas emissões históricas e atuais. E adaptá-las ao que vem pela frente com o crescimento das emissões dos países emergentes, principalmente China, Índia e Brasil. “A principal questão”, diz ele, “é fazer com que a China e os Estados Unidos aceitem qualquer meta; se eles aceitarem, o acordo sai, porque o mundo rateia o resto”.
As graves inundações estão entre os principais efeitos devastadores da mudança climática. Foto: Shutterstock
As graves inundações estão entre os principais efeitos devastadores da mudança climática. Foto: Shutterstock
A preocupação da sociedade brasileira parece forte diante da lentidão no ritmo oficial de negociações. Pesquisa do Greenpeace e do Observatório do Clima mostra que 95% dos brasileiros acham que as mudanças climáticas já afetam o País, embora 48% entendam que “o governo federal faz menos do que deveria para enfrentar o problema” – e entendem que as mudanças no clima “têm relação com a crise hídrica e a crise energética”.
Têm razão. Texto do livro Urbanização e desastres naturais, de Lucí Hidalgo Nunes (comunitexto.com, 4/7), relaciona os 20 desastres naturais na América do Sul que causaram mais mortes (quase 150 mil) entre 1960 e 2009. São, principalmente, inundações, movimentos de massa úmida ou seca, tempestades e epidemias – que podem estar relacionados com o clima. Outro estudo, da professora Patrícia Pinho, da USP, mostra que a bacia amazônica “experimentou um aumento na variabilidade interanual principalmente no que se refere ao início e fim do período de chuvas”. Um dos ângulos estudados é a relação com El Niño e La Niña: “Há um aumento dos extremos hidrológicos na região”. Pode ser até na mortalidade de peixes e nas plantações.
Notícias recentes confirmam: o tambaqui e o cardinal diminuirão nos próximos tempos, segundo o Inpa (amazonia.org, 21/7), por causa do “impacto de mudanças climáticas”. E parece irreversível o fim da tão louvada pororoca, no encontro das águas do Rio Araguari, no Amapá, com o oceano. Reservatórios de três hidrelétricas, abertura de canais para irrigação de lavouras – que influem no clima e na água – e pastagens passaram a drenar águas do rio. E não haverá mais pororocas. Quem se preocupou?
Mas, como tem dito o cientista Paulo Nobre, do Inpe (Estado, 21/7), “falta de água já é uma questão de segurança pública”. (O Estado de S. Paulo/ #Envolverde)
Washington Novaes é jornalista/ e-mail: wlrnovaes@uol.com.br.
** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.

domingo, 19 de julho de 2015

Futuro Sustentável: O clima vai transformar a economia

Mudanças climáticas forçarão a redução das emissões e a adaptação a um mundo mais quente

Três fenômenos vão ditar como será a economia global nas próximas décadas: evolução tecnológica, demografia e as mudanças climáticas. O menos conhecido e mais imprevisível dos três é o clima. A elevação na temperatura do planeta provocada pelas emissões de gases que causam o efeito estufa é um fato que ainda não mostrou totalmente seu poder transformativo. E as mudanças virão, por bem ou por mal.
De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura média da superfície terrestre subiu quase 0,8°C desde o século 19, quando começou a queima de combustíveis fósseis para a produção de energia. O esforço atual das lentas negociações conduzidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) está em não permitir que o aquecimento ultrapasse 2ºC. É na busca dessa meta que se concentra a mudança “por bem” na economia.
Manter o aquecimento do globo abaixo de 2°C só é possível com um corte rápido nas emissões. Elas precisam cair a zero até o fim do século, com uma redução de mais de 40% até 2050 em relação a 2010. Isso é necessário para que a concentração de gás carbônico na atmosfera fique abaixo dos 450 ppm (partes por milhão). Sem qualquer ação, esse nível será atingido dentro de 20 anos.
Um corte assim significa repensar uma economia que é dependente do carbono. A geração de energia para movimentar automóveis, fábricas, acender lâmpadas e aquecer e resfriar casas é responsável por 65% das emissões. Outros 11% vêm do desmatamento e da agricultura. Será preciso investir rapidamente em novas fontes de energia, remodelar as cidades e tornar a agricultura mais produtiva.
“Fazenda” de painéis solares na China é exemplo de adoção de uma tecnologia que ajuda a limpar a matriz energética global e que vai crescer nas próximas décadas.

Custos

Uma conta feita pela consultoria McKinsey em 2009 apontava para a necessidade de um investimento anual de até 350 bilhões de euros (em torno de R$ 1,2 trilhão) por ano até 2035 para limpar a matriz energética global. Isso representa 1% do PIB mundial, valor que se somaria aos investimentos já feitos na economia. No ano passado, um relatório da Comissão Global sobre Economia e Clima calculou que seriam necessários US$ 4 trilhões além dos US$ 90 trilhões que seriam normalmente investidos até 2030. O dinheiro extra, portanto, seria pouco. O impasse nas negociações sobre clima está, no fundo, em como fazer o dinheiro sair da economia “suja” para a de baixo carbono.
Os dois relatórios mostrem que muitas tecnologias permitem que haja economia de dinheiro. O uso de leds na iluminação, por exemplo, já se tornou um investimento com retorno positivo no longo prazo. “O potencial para a redução das emissões com ganho econômico é enorme”, diz Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima. “Há tecnologias já testadas, como o etanol de cana de açúcar e a geração eólica, que podem ganhar escala. Além disso, há muito o que fazer em ganho de eficiência energética.”
A transição para a economia de baixo carbono também exigirá o desenvolvimento de novas tecnologias. Um grupo de cientistas do Reino Unido pede que seja criado um “Projeto Apollo Global” para o clima, em referência ao esforço feito nos Estados Unidos para levar o homem à Lua. A proposta é que os países envolvidos apliquem 0,02% do PIB até 2025 no desenvolvimento de painéis solares mais baratos, tecnologias de armazenagem de energia e redes mais inteligentes para a distribuição.


O fato por trás dessa ideia é que as tecnologias atuais ainda não são suficientes para que o ritmo de redução das emissões seja o adequado. As usinas térmicas garantem energia a qualquer hora do dia, o que não ocorre com um painel solar ou torre eólica. Além de ficarem mais baratas, essas fontes precisam ser complementadas por sistemas de armazenamento, como baterias e hidrogênio.
“A economia precisa caminhar para um modelo mais descentralizado de produção e consumo de energia”, resume Carlos Rossin, líder de sustentabilidade da consultoria PwC. “Ao mesmo tempo, os efeitos negativos da produção precisam ser internalizados nos preços.” Isso significa que, em algum momento, taxas, limites e créditos envolvendo as emissões se tornarão uma ferramenta para estimular a adoção de tecnologias mais limpas.
A boa notícia é que o mercado responde aos incentivos. No Brasil, o crédito via BNDES e os leilões de energia fizeram com que os projetos eólicos se multiplicassem. A capacidade instalada no país chegou a 6 GW, o mesmo que vão gerar as hidrelétricas do Rio Madeira. “As políticas públicas serão determinantes. O Plano Decenal de Energia brasileiro ainda prevê 70% dos recursos para energia fóssil”, afirma André Ferretti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação O Boticário.

Ritmo

O tempo para elaborar as políticas certas e fazer o dinheiro ir para o lado limpo da economia é curto e o ritmo atual não é animador. Um estudo da PwC mostra que, globalmente, a queda na intensidade de carbono da economia (uma medida de quanto é emitido para se produzir US$ 1 milhão) foi de 0,6% ao ano entre 2008 e 2013. A taxa precisaria ser de 6,2% ao ano, segundo o estudo.
Uma das razões para a lentidão é a falta de um acordo entre os maiores poluidores. As negociações do clima ainda não levaram a um tratado com a ambição necessária para reduzir as emissões. Neste ano, no fim de novembro, uma reunião que será realizada em Paris, a COP 21, dará mais uma chance para que haja metas para o clima. “Estamos esperando demais. Se houver acordo em Paris, ele só terá efeitos a partir de 2021”, lembra Ferretti.
Até o momento, países em desenvolvimento vêm se recusando a um acordo em que tenham metas iguais às de países desenvolvidos. Em Paris, é possível que haja uma alternativa, com medidas diferentes para cada nação. O que pode ser insuficiente para atender o limite de 2°C.


Um estudo recente do Banco Mundial diz que um aquecimento de 1,5°C está implícito nas emissões já feitas pela humanidade, o que traz consequências inevitáveis, como a redução na produção agrícola, aumento no número de eventos climáticos extremos e ondas de calor. A janela para se evitarem os 2°C está se fechando.
Para o economista Petterson Vale, pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, é preciso pensar alternativas para as negociações e complementar as metas de redução de emissões com estratégias de adaptação. “O paradigma da COP vem falhando. E a opção a ele são leis unilaterais e acordos entre países”, defende.
O histórico das reuniões sob supervisão da ONU não é dos melhores, e a própria organização da COP 21 elevou para o topo da agenda os investimentos em adaptação. A ideia é que 50% do Fundo Climático Global sejam alocados para ações como pesquisa de novas variedades de plantas, relocação de pessoas em áreas de risco e apoio a pequenas ilhas que vão sumir com a elevação dos oceanos.
“Até hoje não existe um bom modelo para se calcular o custo econômico que será provocado pelas mudanças climáticas”, lembra Vale. O mundo, além de tentar evitar uma catástrofe, precisará fazer um seguro para o futuro sem ter ideia de quanto ele pode custar. Essa é a transformação da economia que pode vir a contragosto.
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Texto publicado na edição impressa  do Jornal Gazeta do Povo de 19 de julho de 2015